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Utilizando o diálogo para desvendar sistemas

Werner Heisenberg, famoso pela criação do princípio da incerteza e autor da notável obra “A parte e o todo” argumenta que “a ciência tem suas raízes nas conversações” (HEISENBERG apud SENGE, 2002, p. 266). A obra reconstrói diálogos com físicos famosos como Einstein, Bohr, Schrödinger, Dirac, entre vários outros. Claramente estes diálogos levaram os físicos a trocarem idéias importantes que os levou a diversas novas teorias que os deixaram famosos, como o próprio princípio da incerteza de Heisenberg e o princípio da complementaridade de Bohr. Curiosamente, é nítido na obra de Heisenberg que as idéias de ambos os princípios surgiram das discussões, principalmente entre ele e Bohr (SENGE, 2002, p. 266).

Pode-se então chegar à conclusão de que coletivamente aumentam-se as chances de novas idéias, pois a inteligência do grupo é muito maior que a inteligência individual. Desta maneira, a capacidade de desvendar as interações sistêmicas de um dado problema é maior coletivamente do que individualmente (SENGE, 2002, p. 266).

Entende-se que a discussão em grupo deve ser realizada através de diálogos, que é uma idéia muito antiga utilizada pelos gregos e outras sociedades como os índios norte-americanos. O princípio do diálogo é que o grupo torne-se aberto ao fluxo de uma inteligência maior (SENGE, 2002, p. 266). De acordo com BOHM apud Senge (2002, p. 267) o pensamento é “um fenômeno em grande parte coletivo”, por isso não podemos aperfeiçoá-lo individualmente. O próprio pensamento é um “fenômeno sistêmico que surge de nossa forma de interação e discurso uns com os outros”. Para Senge (2002, p. 267) existem dois tipos de discurso, sendo estes o diálogo e a discussão, ambos importantes para uma equipe que aprende continuamente. BOHM apud Senge (2002, p. 268) observa que a palavra “discussão” tem origem igual a “percussão” e “concussão”, que sugere que o assunto pode ser analisado e dissecado a partir dos vários pontos de vista dos participantes. O que acontece é que quando há discussão alguém tem que vencer. Ao decorrer da discussão um participante pode ocasionalmente aceitar parte do ponto de vista de outro participante, porém, o objetivo de cada um é que sua visão prevaleça.

Esta ênfase em vencer não é compatível com dar prioridade à coerência e à verdade. Por este motivo é recomendado que se utilize o diálogo, que é um meio de comunicação diferente capaz de mudar as prioridades. De acordo com BOHM apud Senge (2002, p. 268) a palavra “diálogo” vem do grego diálogos, onde dia significa “através” e logos significa “palavra”, ou “significado”. Ou seja, através da palavra, ou um fluxo livre de significados entre as pessoas chega-se a um significado comum. Segundo BOHM apud Senge (2002, p. 269) o diálogo serve para “revelar as incoerências em nosso pensamento”, pois “no diálogo as pessoas tornam-se observadores do seu próprio pensamento”.

BOHM, David. Totalidade e a Ordem Implicada. São Paulo: Madras, 2008. 222p.

SENGE, Peter. A Quinta Disciplina. São Paulo: Best Seller, 2002. 441p.


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